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Com Levy, Dilma deve explicações a seu eleitorado
Data Publicação:28/11/2014

Com a indicação de Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro de Lula e até há pouco tempo executivo do Bradesco, para a Fazenda, a presidente Dilma fica devendo uma satisfação a quem votou nela. A nomeação para posto-chave de uma pessoa afinada ao “mercado”, associada à alta recente de juros e o desenho de um novo ajuste, contradiz (pelo menos no curto prazo) seu discurso eleitoral baseado em mais empregos, mais investimentos no social e tudo o mais.

É como se na narrativa eleitoral de Dilma na TV o capítulo do “ajuste” (menos gastos públicos e mais sobra de dinheiro para pagar os juros da dívida) tivesse sido omitido do projeto oferecido ao país. Como se fosse um detalhe, digamos assim.

Não é incomum políticos fazerem o oposto do que prometeram nas campanhas, como dissessem depois de eleitos: “campanha é campanha, governo é governo”. Quando ganhou pela primeira vez Obama prometeu aos eleitores fechar a prisão de Guantanamo, foco de denúncias de tortura contra acusados de terrorismo. Como se sabe ela está lá até hoje.

Mas, seja qual for o contexto ou o país, convém dar explicações mais contundentes ao eleitorado. Pelo menos tentar mostrar o que significa dizer A e fazer B, ou como no longo prazo B pode favorecer A. Preserva-se assim o discurso político ou ao menos não o descola do projeto de país escolhido nas urnas. Nesta quinta-feira, em entrevista coletiva em Brasília, seus novos ministros da área econômica procuraram demonstrar que não há contradições entre o “mercado” e o “social” – mas não foram eles que foram à TV pedir votos.

No fundo, ao colocar “a casa em ordem” (leia-se: as contas públicas), Dilma reencena um velho filme já protagonizado antes por ela própria e por Lula. Em 2003, quando eleito com o Brasil próximo de quebrar (situação bem diferente da atual), Lula elevou o superávit primário (a sobra de dinheiro para pagar os juros da dívida), tendo produzido desemprego no início de seu governo. Dilma, em 2011, comandou corte de gastos na ordem de 1,2% do PIB.

O problema é o que acontece depois do ajuste. Favorecido pelo bom preço de matérias-primas para exportação, como soja e minério de ferro, Lula conseguiu estabelecer uma agenda de aumento de renda, em especial dos mais pobres, ao mesmo tempo em que agradou ao mercado. O petista virou “o cara”. Operou um milagre: multiplicou o pão dos mais pobres e dos mais ricos também.

Já Dilma, independentemente de ajuste, iniciará seu segundo governo com a crise econômica à espreita, baixos índices de crescimento e uma casa “para arrumar”. Seria uma boa ideia se a presidente explicasse à plateia como o “ajuste” atual levará o Brasil a ser um lugar próximo àquilo que prometeu na TV: um país menos desigual, com menos pobreza, mais e melhores empregos. Cortando orçamento e aumentando a previsão de gastos com juros e encargos da dívida pública será um bom começo? Qual o plano para depois?





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