O governo publicou no "Diário Oficial da União" desta sexta-feira (2) a
lei que determina o atendimento obrigatório e imediato no Sistema Único
de Saúde (SUS) a vítimas de violência sexual. A presidente Dilma
Rousseff sancionou o texto sem vetos na quinta. Segundo a lei, todos os
hospitais da rede pública serão obrigados a oferecer, de forma imediata,
entre outros serviços, a "profilaxia da gravidez", termo que, de acordo
com o Ministério da Saúde, refere-se ao uso da chamada "pílula do dia
seguinte".
O trecho que se refere à “profilaxia da gravidez” é alvo de polêmica
entre religiosos. As entidades religiosas pediram veto ao inciso por
entenderem que o termo abre brecha para médicos realizarem aborto.
O ministro da saúde, Alexandre Padilha esclareceu em entrevista nesta
quinta que, “se uma vítima de violência sexual for amanhã [sexta] a um
hospital, o hospital já tem que cumprir todas essas recomendações”
devido à portaria que está em vigor desde 2008. “Daqui 90 dias, quando a
lei entra em vigor, esse hospital passa a também ser questionado de uma
forma ainda mais intensa, porque não é mais apenas uma recomendação,
mas uma lei do país", afirmou.
A presidente Dilma também vai encaminhar um projeto de lei para
corrigir duas imprecisões técnicas no texto aprovado pelo Congresso. Uma
delas é sobre o conceito de violência sexual e a segunda estabelece,
claramente, no inciso 4 do artigo 3º o uso e a administração da
medicação com eficiência para gravidez resultante de estupro.
"É importante a correção porque esse texto é exatamente o que é
recomendado pelo Ministério da Saúde para vítimas de estupro, ou seja,
usar a medicação até 72 horas para se evitar gravidez de vítimas de
estupro. A oferta de medicação no tempo adequado para evitar gravidez de
vítimas de estupro", disse Padilha.
Pela atual legislação, em caso de gravidez resultante de estupro, é
permitido à vítima realizar o aborto, bastando para isso assinar um
documento no próprio hospital.
Com a lei sancionada, as vítimas também terão direito a diagnóstico e
tratamento das lesões no aparelho genital; amparo médico, psicológico e
social; profilaxia de doenças sexualmente transmissíveis, realização de
exame de HIV e acesso a informações sobre seus direitos legais e sobre
os serviços sanitários disponíveis na rede pública.
Para a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres,
Eleonora Menicucci, as medicações "na hora certa" vão evitar abortos.
"É um projeto que, ao evitar a gravidez com e medicações corretas,
precisas, na hora certa, ele também evita possíveis abortos caso a
mulher resolva fazê-lo. É um projeto que está dentro da conduta do nosso
governo e deixará, amenizará definitivamente o sofrimento de crianças,
mulheres e pessoas portadoras de deficiências e de meninas que sofrem o
estupro e a violência sexual", disse.
Segundo Padilha, a atual política do Ministério da Saúde já prevê "atendimento humanizado".
"Esse projeto transforma em lei aquilo que já é um política
estabelecida em portaria do Ministério da Saúde que garante tratamento
humanizado, respeitoso, a qualquer vítima de estupro", afirmou.
As entidades religiosas também chegaram a pedir veto ao inciso sobre a
"pílula do dia seguinte" por entenderem que o termo abre brecha para
médicos realizarem aborto. O ministro da Secretaria-Geral da
Presidência, Gilberto Carvalho, rebateu os críticos e disse que projeto
diminui a incidência de aborto.
"O que temos a dizer é que é exatamente um projeto que além de prestar o
apoio humanitário essencial para a mulher que foi vítima de uma
tortura, porque todo estupro é uma forma de tortura, ele permite que ela
não passe por um segundo sofrimento, que é o aborto legal.
Sancionando um projeto que foi aprovado por unanimidade no Congresso
Nacional, onde há uma cativa bancada da família, é corrigir esse projeto
que vem do Congresso com uma ambiguidade que, sim, poderia abrir essa
brecha. Apoiamos esse projeto sem abrir nenhuma porta para a prática do
aborto e diminuindo a incidência do aborto legal", disse.
Algumas entidades religiosas também pediram veto ao trecho que trata do
fornecimento de informações pelos hospitais às mulheres vítimas de
violência sexual. O deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) chegou a
protocolar na Presidência da República, no mês passado, um ofício
argumentando que não cabe a hospitais oferecer orientação jurídica,
responsabilidade que seria apenas das delegacias de polícia e outras
autoridades, segundo o parlamentar.